segunda-feira, 5 de abril de 2010

TIRANDO AS PRÓPRIAS CONCLUSÕES!

*A última tentação de Cristo*
*Celibato contradiz os Evangelhos e é a principal causa de abusos sexuais nointerior da igreja, diz teólogo *
HANS KÜNG
Casos graves de abusos sexuais contra crianças e adolescentes por sacerdotescatólicos foram reportados em grande número nos EUA, na Irlanda e agora naAlemanha.Isso representa um imenso problema de imagem para a Igreja Católica e colocaem destaque a profunda crise que ela enfrenta. Falando pela Conferência dosBispos da Alemanha, o presidente da organização, arcebispo Robert Zollitsch,de Freiburg (Alemanha), apresentou uma declaração pública inicial.Que Zollitsch tenha classificado os casos de abuso como "crimes ultrajantes"e que o plenário da conferência, em comunicado de 25 de fevereiro, tenhapedido perdão a todas as vítimas deles serve como primeiro passo paracorrigir esse erro imperdoável.Mas novos passos precisam ser dados. Além disso, a declaração de Zollistchcontinha três erros atrozes que não podem passar sem refutação.1. Asserção errônea: o abuso sexual praticado pelos sacerdotes não temqualquer relação com o celibato.Objeção! Não se pode negar que abusos como esses também podem serencontrados em famílias, escolas, associações e igrejas que não adotamregras de celibato.
*Atitude repressiva*Mas por que eles são tão especialmente recorrentes na Igreja Católica, sobliderança celibatária?Naturalmente, o celibato não é a única causa de delitos de conduta comoesses. Mas é a mais importante e serve estruturalmente como a maiorexpressão da atitude repressiva da igreja com relação à sexualidade emgeral, uma atitude que também é revelada na questão do controle danatalidade e outros assuntos correlatos.A leitura do "Novo Testamento" basta como esclarecimento: Jesus e Paulopraticavam o celibato como forma de estabelecer um exemplo para seuministério, mas permitiam plena liberdade sobre o assunto a cada indivíduo.
*Livre escolha*No que tange aos Evangelhos, o celibato só pode ser afirmado como umavocação adotada por livre escolha, e não como lei de aplicação geral. Paulocontradisse enfaticamente aqueles que, em sua era, assumiram a posição deque "é correto que um homem não toque uma mulher", replicando que, "devido acasos de imoralidade sexual, cada homem deveria ter sua mulher, e cadamulher deveria ter seu marido" (1 Coríntios, 7:1-2).De acordo com a "Primeira Epístola a Timóteo", "um bispo deve serirreprochável, marido de uma só mulher" (1 Timóteo 3:2): O texto não afirma"marido de mulher nenhuma".Pedro e os demais apóstolos eram homens casados, e seus ministérios nãosofreram por isso. Durante muitos séculos, essa continuou a ser a regraprática para bispos e sacerdotes, e nas igrejas do rito oriental, tanto aOrtodoxa quanto nas que se mantiveram unidas a Roma, continua a ser a regra,ao menos para os sacerdotes, até hoje.A lei romana do celibato contradiz os Evangelhos e veneráveis tradiçõescatólicas. Deveria ser abolida! 2. Asserção errônea: é "completamenteerrado" atribuir os casos de abuso a um defeito sistêmico na IgrejaCatólica.Objeção! A regra do celibato praticamente não existiu durante o primeiromilênio da igreja.Ela foi introduzida no Ocidente no século 11, por monges (que optaramlivremente pelo celibato), especialmente o papa Gregório 7º, e implementadacontra a vigorosa oposição do clero na Itália e na Alemanha -onde a oposiçãoera tão feroz que apenas três bispos ousaram promulgar o decreto romano.Milhares de padres protestaram contra a nova lei.Em petição, o clero alemão objetou: "Será que o papa não reconhece a palavrado Senhor "que isso seja aceito por aqueles que o desejem'"?Nessa declaração -a única quanto ao celibato que existe nos Evangelhos-,Jesus fala claramente em favor da livre escolha de um estilo de vida.A regra do celibato, assim como o absolutismo papal e o clericalismorestrito, se tornou um dos pilares centrais do "sistema romano".Em contraste com as igrejas do rito oriental, o clero do Ocidente,especialmente devido ao celibato, veio a se distinguir total e completamentedo restante do povo cristão; uma classe social única e dominante,radicalmente superior à classe laica, mas completamente subordinada ao paparomano.Qual seria a melhor solução para o problema de recrutamento de futurospadres? Bem simples: abolir a regra do celibato, que é a raiz de todos essesmales, e permitir a ordenação de mulheres. Os bispos sabem disso, mas nãotêm a coragem de admiti-lo em público.
*Comissão independente*3. Asserção errônea: os bispos aceitaram suficientemente a suaresponsabilidade.É claro que é bom ouvir sobre as medidas rigorosas que estão sendo tomadasagora para revelar casos de abuso e prevenir sua repetição futura.Ainda assim, é preciso perguntar se os próprios bispos não são responsáveispelas décadas de acobertamento de casos de abuso, por muitas vezes não teremtomado medidas sérias, limitando-se a transferir sigilosamente ospredadores.Será que não deveriam ser criadas comissões independentes para enfrentaresses casos?Por motivos de discrição, a sigilosa Congregação para a Fé, do Vaticano, nopassado assumiu jurisdição exclusiva sobre todos os casos de delitos sexuaispraticados por padres e, com isso, entre 1981 e 2005, todos esses casosforam encaminhados ao seu prefeito, o cardeal Ratzinger [o atual papa Bento16].Em 18 de maio de 2001, por exemplo, o cardeal Ratzinger enviou aos bispos detodo o mundo uma "Epistula de Delictis Gravioribus", uma epístola solenequanto a crimes sérios, a qual dispunha que os casos de abuso seriamcolocados sob "secretum Pontificium", ou "segredo papal", cuja violaçãoacarreta sérias penalidades eclesiásticas.Será que a igreja não tem direito a um "mea culpa", vindo do papa bem comodo colégio de seus bispos?E esse ato de contrição não deveria estar vinculado a um ato de reparação, oqual admitisse por fim que a regra do celibato, cuja discussão não foipermitida no Concílio Vaticano 2º [1962-65], deveria ser submetida aojulgamento livre e aberto de toda a igreja?É hora de usar a mesma abertura com que a igreja está por fim enfrentando oscasos de abusos para atacar uma de suas causas estruturais: a regra docelibato.------------------------------A íntegra deste texto saiu nos jornais "New York Times" e "Le Monde".Tradução de *Paulo Migliacci*.

Um comentário:

Maria José disse...

Os abusos sexuais, principalmente em crianças, causam sérios danos emocionais e psicológicos. Essas tristes experiências podem ser devastadoras. A criança é induzida à prática do sexo de maneira deturpada, traumática, ficando com marcas para o resto da vida e, futuramente, desenvolver comportamentos patológicos os mais variados. É um desrespeito aos direitos de qualquer ser humano. Todos teem o direito a viver uma vida livre de toda e qualquer forma de violência. Grande abraço.